Improviso na Dança do Ventre

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Imagine que você é um pintor e vai pintar uma tela em branco para retratar uma história que alguém te conta. As cores e formas você decidirá na hora, enquanto ouve a história, da forma como melhor fizer sentido para você. Isso é o improviso!

 

Quem nunca teve receio ou dúvidas na hora de improvisar na dança do ventre? Esse é um tema que costuma assustar muitas bailarinas e bailarinos por aí! Diferente de outras modalidades de dança solo mais tradicionais (como o ballet e o jazz), no nosso mundo bellydance o improviso é algo muito utilizado. Ao invés de coreografar, a solista(o) constrói sua dança no momento da apresentação, o que pode deixar a performance mais orgânica e natural no corpo do artista.

 

É importante lembrar que essa não é uma regra que se repete universalmente no mundo da dança árabe. Conversando com amigas e professoras com experiências internacionais, pude notar que essa valorização do improviso é algo muito comum no Brasil e também em lugares onde as bailarinas fazem shows com diversas músicas seguidas, como nos Emirados Árabes. No mercado internacional, especialmente quando falamos sobre grandes estrelas da dança, a grande maioria dos solos é coreografado, ainda que possa parecer tudo muito natural. O segredo, é claro, são horas de muito ensaio!

 

Coreografia? Que coreografia? Cara de “nasci dançando assim, meu bem!”

 

Coreografado ou não, na minha opinião a sua dança deve ser aquela que te deixa mais à vontade e que faz mais sentido para você enquanto artista. Se você escolher o improviso em alguma proposta, ótimo! Que seja uma escolha consciente e que também necessita de bastante estudo para acontecer com maestria e naturalidade.

 

Geralmente, uma das minhas razões para dançar de improviso é pela liberdade de criar a partir da sensibilização musical do momento, sem precisar necessariamente seguir um roteiro pré-estabelecido. Estudando e pesquisando sobre o tema, vi que existem dois formatos de improviso:

 

  • Improviso estudado: é aquele improviso em que nós já tivemos a oportunidade de estudar a música, conhecê-la à fundo e até mesmo testar no corpo as suas possibilidades, mas mesmo assim deixando a dança fluir livremente na hora da performance. Essa costuma ser a minha opção em 90% das vezes!

 

  • Improviso total: quando a bailarina ou bailarino nem mesmo conhece a música, ou conhece mas não estudou a fundo. Alô, Khan El Khalili! Nesse caso, esse tipo de performance exige uma intimidade muito grande do artista com as nuances da música árabe, suas possibilidades de ritmos, instrumentações e andamentos, além de uma técnica já muito fluida e “pronta” no corpo para responder muito rapidamente ao estímulo auditivo em pouquíssimos segundos.

 

 

Em ambas as propostas é preciso ter criatividade e responder ao estímulo musical de prontidão. Alguns artistas e pesquisadores defendem que a dança deve ser como uma tradução simultânea da música, e para isso é preciso entender muito bem dos dois assuntos.

 

E como deixar a técnica fluir no corpo livremente? Como aflorar a criatividade e parar com aquele pensamento no meio da dança de “o que eu faço agora pelo amor da deusa?” Bom, para estudar improviso também existem técnicas e caminhos possíveis! Venho estudando esse tema especificamente a mais de um ano, quando prestei a pré-seleção da Khan El Khalili, e continuo voltando ao tópico de tempos em tempos, pois é algo muito exigido no meio e que eu ainda preciso melhorar e muito. Durante esse tempo de dedicação, aprendi algumas dicas que foram e são muito valiosas para quem quer se aperfeiçoar na improvisação!

 

 

Aquele momento em que você tá dançando de boas e entra um ritmo MUITCHO LOUCO na música! “Quem resolveu colocar esse Dharafat aqui????”

 

Dicas para Improvisar!

 

  • Ouça muita música árabe. Quando você achar que já ouviu muito, ouça um pouco mais! A música oriental é muito diferente das músicas do Ocidente, as quais ouvimos desde pequenos (a não ser que você venha de família árabe). Então, para a alquimia música + dança funcionar, é preciso muita intimidade com as duas linguagens, como eu já falei ali em cima. Se você ainda não tem o costume de ouvir música árabe, uma boa dica pode ser iniciar por cantores mais modernos e populares, como Wael Kfoury, Amr Diab e Nancy Ajram, que costumam ter músicas mais próximas às nossas composições “pop”. Aos poucos você pode ir evoluindo para rotinas clássicas orientais e, depois, para grandes compositores e intérpretes, como Abdel Halim Hazes, Warda e Oum Kalthoum.

 

  • Investigue as possibilidades da música árabe. Conheça as possibilidades de ritmos mais usadas e teste tudo no corpo, para habituar-se ao andamento destes, assim como as possibilidades melódicas. Como seu corpo reage quando entrar uma rumba na música? Ou um solo de qanun? Quais as possibilidades você vê como ideais/interessantes/cabíveis para esse instrumento melódico?

 

  • Mantenha a calma. Não precisa e nem vale a pena se desesperar nos dois primeiros compassos de um novo trecho da música. Ouça primeiro, ainda que já fazendo alguma movimentação confortável (também não vale ficar parado). Tudo bem que isso é algo que acontece muito rápido, mas evite “correr atrás da música”. Tente canalizar a ansiedade e deixar o seu corpo responder de forma natural num primeiro momento. Para isso acontecer naturalmente, nada como muito treino!

 

  • Treine sua dança utilizando sequências. Elas são ótimas para treino de musicalidade e também para trabalhar as emendas entre os passos, de forma que a dança aconteça de maneira fluida e leve, sem parecer uma sequência de passos com pequenas pausas e preparações entre eles.

 

 

Plena e fluida!

 

 

Esses são alguns pontos principais que procuro ter em mente para construir e aperfeiçoar o meu improviso. De qualquer forma, sempre surgem dúvida e vários pontos a melhorar, por isso é importante se manter sempre estudando. E as suas dúvidas sobre improviso, quais são? Nas próximas semanas vou abordar novamente esse assunto e prometo trazer referências bem legais sobre o tema e alguns exercícios para quem quiser treinar em casa.

Beijo e até o próximo post!

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