Diário de bordo: Bruna Nassif no Egito

Hello, dancers! Hoje não sou eu, Rayara, que escrevo o post do dia, mas sim a bailarina e professora Bruna Nassif, criadora do método Bellyfitness, que aceitou o meu convite para escrever sobre a visita dela ao Egito, o centro mundial da dança do ventre! Aproveitem o texto maravilhoso (e super sincero) dessa profissional maravilhosa.

 

Sabe, desde criança eu sempre soube que estaria naquele lugar de uma forma ou de outra. Quando era pequena já me interessava por programas de arqueologia, dizia que queria ser arqueóloga, eu queria estar no Egito! Com os caminhos que a vida foi me levando ao longo dos anos, de uma maneira ou de outra, eu cheguei até lá. Cheguei para estudar, para conhecer, para me encantar e para me assustar. Sim, o Egito consegue causar todas essas impressões e sentimentos em você ao mesmo tempo. Antes de mais nada, eu acredito que este deve ser um ponto de parada imprescindível para TODOS, não somente quem pratica a dança ou quem gosta da cultura, pois mesmo quem não gosta, acaba gostando e acaba se encantando pelo simples fato de perceber com os próprios olhos que de fato a civilização e a história começou lá.  As visitas aos templos imponentes nos fazem repensar a nossa existência, nos fazem refletir sobre a facilidade que temos hoje em dia, na evolução, e nos faz pensar “Como eles montaram tudo isso naquela época? ” É um mistério, é encantador, me faz viajar em outras dimensões e sinceramente todo mundo precisa passar por isso. Ainda falando sobre civilização, sentimentos e história, passamos por uma sensação de fraqueza e de medo, porque eu penso como que uma terra que foi o berço da civilização, que era banhada a ouro e a templos enormes, colossos incríveis, reis, faraós e deuses maravilhosos, perdeu esta identidade? Como pode hoje ser um país tão pobre, tão parado no tempo? Eles que foram os maiores revolucionários da história… Me faz pensar na ganância dos homens, me faz pensar na corrupção, me faz pensar no egoísmo, no caráter das pessoas. De qualquer forma eu preciso passar por isso, é um choque de realidade, é um choque de valorização ao que temos, é um choque de humanidade, é uma visão de que não estamos sozinhos no mundo.

 

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Bruna dando close nos templos, maravilhosa! (o comentário é da Rayara, só pra constar)

 

 

Sobre os grandes festivais

Este é o segundo ano consecutivo que tenho o prazer de estar no Egito. A intenção sempre foi estudar e me aperfeiçoar com os mestres Egípcios. O mês de julho é o mês de maior concentração de Festivais Internacionais no Cairo, alguns batem as mesmas datas, outros iniciam em semanas alternadas… Tem professores para todos os gostos, tem Festivais que são tão internacionais que quase não tem professores Egípcios, e em contrapartida outros festivais que são exclusivos de Egípcios, com uma minoria de outros países. A questão é que o mundo da dança oriental se encontra ali naquele momento. É um momento de networking, de assistir tendências, novidades, se inspirar, aprender e mostrar seu trabalho também. Funciona assim: 1 semana inteira com aulas durante o dia, mostras de dança e competição nas noites. Ah claro, sem contar o Open Gala e Closing Gala. São os momentos auge dos Festivais, quando dançam os grandes mestres.

Nós nunca sabemos direito quem apita o que por lá, mas a concorrência é muito mais forte do que podemos comparar no Brasil, os professores devem ser leais e fiéis a cada festival. Se trabalha no festival x não pode participar do festival y e ponto final. Por isso de um ano para o outro a grade dos festivais pode ser alterada, uns para melhor, outros para pior. Agora falando especificamente da minha experiência, participei do Festival Raqs Of Course, organizado por Randa Kamel, Tito Seif e Mohamed Shahin. Este é um festival mais recente no Cairo, mas que tem crescido gradativamente ano a ano. A maioria dos professores são egípcios, dando espaço também para bailarinas ucranianas, chinesas e brasileiras, sim nossa Jade El Jabel é mestra nesse festival. Os workshops têm formatos de 2 ou 3 horas. Geralmente salas lotadas, em aulas simultâneas; é muita gente fazendo aula. Ponto negativo a meu ver: sempre tem um grupo de uma nacionalidade especifica achando que vai fechar um contrato de 1 milhão de dólares num destes workshops, e estas saem passando por cima de todas as outras, forçando expressões, só falta colocar uma melancia na cabeça para conseguir chamar mais atenção. Brincadeiras e desabafos a parte, os Mestres são simpáticos com todos! Absolutamente todos, eles transitam normalmente pela feira de expositores (que é outro momento mágico), pelas cadeiras, pelo público. Já ouvi muitas histórias de que estes mestres quando estão fora do Egito, em situações por exemplo de workshop no Brasil acabam sendo um tanto arrogantes, não são muito simpáticos… chegamos à conclusão de que é lá no festival que eles fecham o restante de contratos por tantos outros países que eles fazem turnê. Se é verdade ou não, não sei. Sei que de fato a simpatia não é problema e nos sentimos muito bem acolhidos.

 

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Com a musa, rainha, deusa, Randa Kamel ♥ (comentário da Rayara, a maior tiete que você respeita)

 

 

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Com os mestres Gamal Seif e Tito

 

 

Todas as noites no Festival acontecem as Mostras de Dança, onde você escolhe uma música e pode dançar com a banda da Randa, muita gente se apresenta neste momento. Estas apresentações iniciam geralmente entre 21:00h, lembrando que as últimas aulas do dia se enceram as 19h, ou seja, correria total para se arrumar e estar impecável para dançar. Independente disso, dançar com a banda da Randa Kamel só tem a acrescentar na nossa carreira, como experiência, como uma lembrança maravilhosa, como empoderamento, vou explicar o porquê: vocês fazem ideia de quantas músicas chegam no Brasil, quantas músicas a gente pira de tanto escutar sem saber quem gravou? Há grandes chances de os caras que gravaram músicas que amamos ouvir no CD estarem naquele palco tocando para você, portanto existem menos riscos dos músicas alterarem na hora as músicas (eu disse menos riscos, ou seja, não quer dizer que isso não aconteça). Existe uma conexão instantânea com os músicos se você estiver aberta para tal, eles te recebem com muita simpatia, e mesmo que eu não saiba explicar isso tecnicamente, eles conseguem prever a batida ou o movimento que você vai fazer e vem com um ták certeiro. No fim das contas, sem querer querendo você acerta a música inteira, porque ali os músicos estão a favor da bailarina, quem manda aonde vem o ták, aonde vem o rush, aonde vem o dum, é a bailarina e isso é uma das melhores sensações que sinto dançando lá. Depois desse momento de mostras de dança, começam as competições, e aqui vou deixar vocês sem maiores detalhes, o único detalhe que sei é que começa bem tarde! As mostras geralmente terminam entre 22:30/23:00h, depois disso ainda existe o show dos mestres que darão os workshops do dia seguinte, e só então acontece a competição. Confesso que depois que os mestres dançavam, eu saía e ia comer um delicioso hambúrguer à beira da piscina, fumando um arguile.  Ano que vem eu vou de novo, e vou verificar direitinho o que rola nas competições, rs.

 

Dançando na Mostra!
Dançando na Mostra!

 

Compras no Egito

Dependendo do grupo de excursão que você vai, os dias nos festivais são distintos, alguns ficam a semana inteira, outros ficam 3 dias, isso depende de cada um. A questão é que saindo do festival, ou antes do festival começamos os roteiros turísticos – museus, pirâmides, Khan el Khalili. Já que mencionei o grande mercado, vamos falar de negócios… Esta é a primeira coisa que você vai aprender no Cairo, e no Egito como um todo. Sabe aquela história de que árabe é vendedor nato, tem lábia, etc e etc? Então, isso não é mentira, é verdade, mas não no bom sentido. Eles de fato são comerciantes puros, mas nós brasileiros podemos estranhar muito no começo os tipos de negociações. Pois não é como aqui, que você entra numa loja, vê a etiqueta com o preço, se você tem dinheiro você compra se não, não. Lá não existe etiqueta nem preço nos produtos, eles dão o preço de acordo com a sua cara, e obviamente preço para turista é diferente de preço para egípcio. O primeiro valor que eles falam nunca é o valor oficial (qual será o valor oficial a gente nunca sabe), a questão é que tem que barganhar e pechinchar. Eu sempre falo que o Brasil está em crise, brasileiro não tem dinheiro, e aprendi também que quanto mais a gente chora o preço mais eles gostam. Chegamos a perder de 30 a 40 minutos em uma única loja negociando com o vendedor. Outra coisa é que você não pode entrar na loja só para “dar uma olhadinha”. Ou você nem olha para o lado, ou você olha e aguenta um vendedor te explicando que o produto dele é o melhor do Egito e você precisa levar. É um hábito corriqueiro e em terras desconhecidas, precisamos nos acostumar. De um ano para o outro, senti uma diferença grande nos preços, mesmo pechinchando, parece que o mundo inteiro está em crise e com inflação. Questões monetárias a parte, queremos levar tudo! Ah, e eles não sabem o que é cartão de crédito, não adianta mostrar, pedir para parcelar, pedir para pagar à vista… Eles entendem que você quer um caixa 24 horas para fazer um saque. Ou seja, se você for para lá, leve dinheiro em cash, cartões somente são aceitos nos hotéis, o que ajuda na hora de pagar a alimentação.

 

 

Roteiros turísticos

Voltando ao foco, após terminar os festivais começam os roteiros turísticos, e encerro este texto justamente da maneira que comecei. É incrível, é esplendoroso, é imponente, cada templo, cada visita nos coloca entre a riqueza de milhões de anos atrás e a pobreza dos dias de hoje. A melhor parte do roteiro para mim é o cruzeiro pelo Rio Nilo, fazendo o trecho Aswan/Luxor. São 3 dias a bordo de um lindo navio, navegando pelo Rio Nilo, o navio para de cidade em cidade, cada cidade tem templos e histórias diferentes, lembrando que no início de tudo “Tebas” era a capital do Egito, que é justamente nesta região ao sul do Egito, portanto os maiores vestígios da história estão por lá. A região sul, principalmente a cidade de Luxor, é a terra do SAID, um dos folclores que eu mais amo, e me emociono toda vez que vejo que isso é real, homens de galabya e turbante andando com um bastão na mão, sempre tem alguém a postos com o Mizmar e um Rabeb para começar a tocar um Saidão. É ali que eu falo “to no Egito”.

 

Visitando Luxor
Visitando Luxor

 

 

Considerações finais

Sobre a pobreza, sobre a sujeira…. Pessoal, não tenho o que dizer, realmente é sujo, é mal organizado, existem milhares de construções inacabadas, e aí você não sabe se foi guerra, se foi desleixo, se foi embargado. As pessoas não cheiram a perfume, pelo contrário. Isso dizendo nas ruas, no Cairo, em Luxor, ou onde for… Tem de tudo! Porém este ano consegui ver um pouco mais de perto o outro lado, o lado da luxúria e glamour. Tive o prazer de assistir a dois shows da nosso número 1 da Soraia Zaied, bailarina brasileira, contratada pelos 2 hotéis mais chiques e caros do Cairo. Estando ali, observando as pessoas eu vi onde está a ostentação e o luxo do Egito, e é bem diferente, de fato imagens extremas, muitos contrastantes que a gente observa em um curto espaço de tempo. Violência existe, mas de uma forma diferente. Por terem leis mais rígidas, acredito eu que a maior parte dos crimes lá sejam feitos de outras formas. Eu seria hipócrita de dizer que não existe, mas já li muito a respeito e tudo leva a crer que como o Egito é um país que vive basicamente de turismo, então eles não maltratam nem fazem mal a turistas justamente por isso. Claro que se ele puder tirar uma graninha a mais de você ele vai tirar, mas de modo geral é tranquilo, mesmo em meio a um transito e a uma multidão caótica. Para comparar: cheguei semana passada em SP e fui esperar minha carona na Rodoviária Tietê. Já eram umas 21h e eu já senti muito medo pelo horário e local, ou seja, sinto mais medo no meu país do que lá.

Gente, abri meu coração para vocês, poderia falar por horas e horas, mas acho que mais importante do que falar é vivenciar. Se você se sente tentada a conhecer os mistérios do Egito, vamos ano que vem! Eu estarei lá de novo, com toda certeza! Essa é a minha dose de inspiração, minha dose de renovação, minha dose de motivação. Em breve mais novidades.

Obrigada Blog Taksim pela oportunidade! Beijos a todos.

 

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Autora:

Bruna Nassif

Bailarina, professora e coreógrafa de Dança do Ventre

Instrutora de Zumba e Pilates | Graduada em Ed. Física

Criadora do método BellyFitness: www.bellyfitness.com.br

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